
Como atravessar uma onda de vontade intensa sem ceder
Ler
Uma vontade intensa pode começar por uma sensação no corpo, uma imagem mental ou uma discussão súbita contigo próprio. Podes notar um aperto na garganta, inquietação nas mãos ou vontade de te aproximares da substância ou do comportamento antes de tomares uma decisão consciente. A vergonha pode surgir logo a seguir: «Já devia ter ultrapassado isto» ou «Já estraguei tudo». Trata este momento como algo que está a acontecer agora, em vez de o tomares como prova de quem és. Diz: «A vontade está aqui. Não tenho de decidir o resto do dia enquanto ela está tão forte».
Põe um temporizador para três minutos e identifica o que está a acontecer sem lutar contra isso: «Isto é uma onda de vontade intensa, não é uma ordem». Apoia os dois pés no chão ou pressiona-os contra outra superfície firme. Localiza onde sentes mais o impulso, talvez na garganta, na barriga ou nas mãos. Descreve a sensação mentalmente com palavras simples: aperto, calor, vazio, formigueiro, peso ou movimento. Se não conseguires identificar uma sensação, nomeia antes algo que consigas observar: «Os meus pensamentos estão acelerados» ou «Estou sempre a olhar para a porta». Respira de forma regular, sem tentar fazer desaparecer a vontade.
A cada trinta segundos, volta a observar. Pergunta a ti próprio: «Mudou de sítio? A intensidade mudou? Está mais aguda, mais difusa, mais quente ou menos constante?». Estás a recolher observações, não a exigir uma melhoria. Imagina que observas uma onda a subir, a rebentar e a baixar ao seu próprio ritmo. Se a tua mente disser «Tenho de fazer isto agora», responde: «Estou a ter o pensamento de que tenho de o fazer». Se disser «Isto nunca vai parar», experimenta: «É isso que a minha mente está a prever enquanto a vontade está aqui». Depois, volta a atenção para os pés, a respiração e o corpo.
Quando o temporizador tocar, adia a decisão por mais dez minutos. Muda logo de ambiente, antes de começares a discutir contigo próprio. Vai para um local sem acesso à substância ou ao comportamento. Isso pode significar sair de uma divisão, afastar-te de um dispositivo ou sentar-te num local público ou partilhado onde seja mais difícil agir por impulso. Bebe água. Decide apenas o que vais fazer durante este pequeno intervalo. Podes dizer: «Não estou a fazer uma promessa para o dia inteiro. Vou esperar mais dez minutos e depois volto a avaliar».
Contacta uma pessoa que tenhas escolhido antecipadamente. Envia uma mensagem direta que explique o que precisas: «Estou com muita vontade de ceder. Fica comigo durante dez minutos enquanto esta onda passa, por favor». Se falar for difícil, envia: «Não precisas de resolver isto. Continua a responder enquanto vou para um lugar mais seguro, por favor». Se a pessoa perguntar o que ajudaria, responde de forma concreta: «Pergunta-me onde estou, se já me afastei do acesso e o que vejo à minha volta». Se não responder, contacta outra pessoa ou vai para um local com outras pessoas. Repete os três minutos de observação e mais dez minutos de adiamento, em vez de ficares à espera junto ao telemóvel.
Adapta o plano à vida que realmente tens. Se vives sem companhia, escreve as mensagens antecipadamente e identifica um local para onde possas ir e onde haja outras pessoas. Se não tens família por perto, escolhe alguém que possa manter o contacto por chamada ou mensagem. Se trabalhas por turnos, diz à pessoa de apoio quando a vontade costuma surgir e pergunta se pode responder por essas alturas. Se o dinheiro é pouco, usa ações que não exijam compras: muda de divisão, afasta-te do acesso, bebe água e envia a mensagem preparada. Se o idioma é uma barreira, escreve o pedido na língua em que te sentes mais à vontade e guarda-o num local onde o encontres rapidamente.
Por vezes, a primeira tentativa não reduz a vontade. Podes continuar a sentir um impulso forte para agir, ou sair do local mais seguro e voltar a aproximar-te do acesso. Encara isso como um sinal de que o plano precisa de uma resposta mais imediata. Muda novamente de local, contacta outra pessoa e diz: «A vontade continua forte e o meu primeiro plano não resultou. Preciso que mantenhas o contacto enquanto me afasto mais». Repete intervalos curtos. Se já cedeste ao impulso, não deixes que a espiral de vergonha decida o que acontece a seguir. Diz: «Isto aconteceu. Ainda posso contactar alguém e explicar exatamente o que fiz e o que preciso agora».
Procura um profissional de saúde mental quando a vontade intensa continua a interromper o sono, o trabalho, as relações ou as consultas, quando o teu plano de adiamento breve falha repetidamente ou quando começas a esconder o que se passa das pessoas que te apoiam. Leva informações observáveis: quando surgiu a vontade, o que sentiste no corpo, a que tinhas acesso, que passos tentaste e o que aconteceu depois. Podes dizer: «Está a ser cada vez mais difícil adiar a resposta à vontade, e é esta a frequência com que ela interfere no meu dia. Preciso de ajuda para preparar um plano para estes momentos». Se houver risco de sobredosagem, sintomas graves de abstinência ou outro perigo imediato, procura ajuda médica urgente ou os serviços de emergência.






